quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sobre inclusão

Nessa participação que eu pude fazer na Tribuna, foi pedido que eu escrevesse algumas linhas sobre deficiência.

Este não é (de jeito nenhum!) um assunto simples, tem milhões de aspectos a serem abordados e a própria maneira como a matéria inteira foi escrita não necessariamente condiz com a minha percepção sobre o assunto... 
Mas os meios midiáticos são assim, e só de poder plantar uma sementinha, já é um passo! :)
(o título não é meu)


Sobre depressão

Aquela mesma amiga que anteriormente me chamou pra escrever na edição especial de dia dos pais da Tribuna Impressa de Araraquara perguntou se eu poderia escrever um trecho sobre depressão.
A ideia dela era que fossem dadas três dicas do que fazer e três dicas do que não fazer quando alguém próximo está com depressão.

Novamente: não é fácil escrever alguma coisa que seja condizente com o que acredito enquanto profissional, com linguagem que todos os leitores do jornal possam compreender, neste formato e em 11 linhas do word. Mas de novo, saiu alguma coisinha.
Os títulos não são meus, só o conteúdo das "dicas".



Sobre filhas.

Uma amiga do colégio me procurou e disse que o jornal no qual trabalha faria uma edição sobre como é, para pais, ter filhas meninas. Perguntou se eu poderia escrever algumas linhas sobre isso. Com tanta gentileza, aceitei. Ela é ótima.
Considerei algumas questões. Primeiro que, claramente, para o jornal pais são homens. Não foram consideradas famílias homoparentais. Isso já é esperado na grande circulação (mas não desejado).
Segundo: com certeza haveria relatos de pais indicando tudo o que tiveram que aprender para serem “criadores de meninas”.
E terceiro: era para um público de não-psicólogos. Ou seja, a linguagem deveria ser o mais abrangente possível.
Foi bem difícil escrever. Juntando essas considerações, embora eu tivesse uma ideia clara do que queria expressar (defesa da educação não sexista). Mas saiu alguma coisa. E foi publicado. 

Meninos choram sim! E jogadores de futebol também!

Vi inúmeras reportagens que tratavam o choro dos jogadores como uma fraqueza, um despreparo, e os argumentos eram embasados no fato de que, na posição de defensores de todo um país, deveriam se manter fortes.
Agora, vem cá.
Imagina as Olimpíadas. Teremos inúmeras atletas mulheres defendendo o Brasil. Se elas chorarem vocês acham que vai ser o mesmo ba-fa-fá?
Óbvio que não. 
Todo esse rebuliço se resume a uma crença social: a de que homens (diga-se, machos) não choram.
Aí você diz: “Ah, mas vocês vêem a questão do gênero em tudo, mimimi”.
Então.
Digitei no google “jogadores Brasil choram” e só na primeira página apareceu: “Jogadores choram após deixar escapar o sonho do hexa”; “David Luiz chora após derrota do Brasil e pede desculpas por goleada histórica”; “Jogadores choram após a derrota contra Alemanha”; “Drama, tensão e alívio: jogadores choram antes e durante as penalidades”; “Por que os jogadores brasileiros choram tanto?”.
Ou seja: se eles tivessem saído xingando, a notícia seria apenas: “Brasil perde para Alemanha”, porque xingar é “natural do macho”. 
Cansei de ver psicólogo meia boca escrevendo besteira sobre isso, e endossando o aspecto “absurdo” dos jogadores terem chorado.
Esse trecho de Maia e Maia (2009) fala em outros termos sobre isso:
"As questões de gênero dizem respeito às relações de poder que existem e se exercem entre as pessoas, de acordo com seu pertencimento a determinado gênero; diz respeito às diferentes formas de valorizar ou desvalorizar  determinadas características associadas aos gêneros e, também, a estereótipos e preconceitos relacionados a eles. Tais noções, normas, valores, ideais e concepções, tal como o próprio conceito de gênero, são construções sociais que se transformam na história".
Ou seja:
Jogadores do Brasil = Homens
Homens = Estereótipo de força
Estereótipo de força = Não podem chorar
Jogadores do Brasil = Não podem chorar
Isso é uma tristeza. Em grande parte advém de que, para a publicidade anterior aos jogos, foi conveniente divulgar uma imagem de jogador-macho-alfa. E ter que quebrá-la após o jogador-que-tem-sentimentos foi um choque.
O próprio início de jogo mostrando os jogadores com cara de mau cruzando os braços na apresentação é uma construção engraçada. Substituída, ao final do jogo, pelos abraços, soluços e consolos. 


Fotografia, Corpo e Diversidade - armas para luta.

A fotografia é, basicamente, como todas as outras armas: pode ser utilizada para buscar libertação, quebrar tabus e preconceitos, ou para cultivá-los.
O corpo é outra arma incrivelmente poderosa, e igualmente controversa: pode cultivar a imagem padrão que nós, meros mortais, nunca alcançaremos, mas passaremos a vida gastando nosso pobre salário tentando. Ou, pode servir para lutar, o corpo pronto pra buscar nossos direitos e pra ser valorizado com todas as diferenças. 
O corpo da mulher, especificamente, tem inúmeras marcas profundas, incutidas por uma sociedade histórica, econômica e culturalmente machista e individualista.
O nado contra essa corrente tem ganhado muita força de inúmeros grupos pelo mundo todo, mas a desconstrução da imagem desvalorizada não é simples de fazer.
Como lutar? 
A psicóloga e fotógrafa Marion Caruso fundou o “Projeto Diversidade” divulgando fotografias de valorização do corpo feminino ALÉM dos padrões: são mulheres de todos os tipos, e, pela primeira vez, vejo a inclusão de pessoas com deficiências em ensaios como este. 
Justamente quando conheci este ensaio estava lendo um livro chamado “Inclusão e Sexualidade”, da Ana Claudia Bortolozzi Maia e vi uma citação que cabe direitinho nesse contexto.
Ela fala especificamente sobre o corpo com deficiência, mas acredito que o que é dito pode se aplicar ao corpo fora dos padrões ideais como um todo. Ela cita Sorrentino (1990):

"A percepção que temos no existir humano é feita de comparações diretas e também das comunicações interativas, isto é, da maneira diferente com que as pessoas significativas se relacionam conosco e com os demais. Viver num corpo diferente é viver com o incômodo de se sentir diferente e de ser tratado como diferente. As pessoas na sociedade procuram mimetizar o ideal ou anular a diversidade porque, além da limitação funcional é, sem dúvida, desagradável viver num mundo em que tudo é feito e organizado por pessoas sadias e não deficientes, apesar dos esforços em modificar as estruturas sociais vigentes.
A comparação com a eficiência dos sadios é frustrante e as diferenças seriam mais toleráveis se não representassem uma desvantagem inevitável nas relações sociais e também a possibilidade de, devido ao fato de ser diferente dos padrões, não conseguir a atenção, o amor e a estima dos demais. A dimensão do afeto, ameaçada pelo estereótipo da diferença colabora para que a pessoa com deficiência introjete os sentimentos de menos valor, de perdedor, de excluído”. (pág. 48)
Lido isto, aproveite e admire esta obra de arte linda, sensível e libertadora:  https://www.facebook.com/projetodiversidademarioncaruso