terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre novelas brasileiras e beijos na boca.

As últimas semanas foram marcadas por polêmicas com relação à rejeição e boicote da novela "Babilônia" (da Globo) na qual há um casal de mulheres idosas interpretadas por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg.

A Flávia Nosralla (jornalista do RepórterUNESP) teve a ótima ideia de incluir uma discussão sobre isso na última edição da revista e eu tive uma participaçãozinha. Pra ler na íntegra, dê uma clicada aqui.

Conversando com ela sobre isso foi possível registrar algumas ideias e reflexões, que estão transcritas no texto abaixo :) 

Super bacanudo esse infográfico que eles incluíram na reportagem...
Mas *esperando ansiosamente* o dia em que não precisaremos mais contar nos dedos quem é hetero, homo, bi, trans, e poderemos falar simplesmente em pessoas se relacionando com pessoas (o quão difícil pode ser entender isso?)


Para discutir a questão da homossexualidade nas mídias, é necessário pensar um pouco sobre a ideia de normatividadeNormativo é o indicado como valorizado por um grupo social, é aquilo que se pensa como correto, ideal. Em nossa sociedade, por exemplo, é clara a normatividade do corpo magro, da cor de pele branca, da classe financeira alta de consumo, da heterossexualidade, da família nuclear, das pessoas sem deficiência. Ou seja, existem "normas", mesmo que não explícitas, sobre o que é valorizado e desejado.
Um conceito que deriva deste é o de heteronormatividade: conjunto de ideias que indica como "correto" o padrão heterossexual de relacionamentos. Isso fica muito claro nos discursos cotidianos e nos materiais midiáticos.

Dito isso, vamos pensar sobre a aceitação - ou não - das personagens nas telenovelas.

Ela se deve à inúmeros fatores: Félix, por exemplo, conquistou o público de forma positiva e correspondia em certas medidas a um estereótipo, mas para além disso era uma personagem complexa, contraditória, ambígua e muito bem interpretada pelo Matheus Solano. O fato de ter se envolvido com outro homem em um relacionamento que poderia ser considerado normativo (seu parceiro tinha um emprego de alto padrão, era branco, tinha filhos...) provavelmente impulsionou a aceitação. O beijo das personagens no último capítulo foi sim um momento importante da televisão brasileira - já que até então a representação afetivo-sexual entre pessoas do mesmo sexo era feita por meia de abraços simplesmente. Mas ainda assim com normatividadescomo citei anteriormente: era um casal construindo uma família nas "normas".

Com relação à Marina e Clara foi muito interessante a aparição delas - embora possa ser feita a mesma crítica que no caso de Félix. Elas eram magras, ricas, bonitas, muito próximas aos padrões sociais desejáveis. Mesmo assim, a aceitação parece ter sido diferente, mas isso não deve ser uma surpresa. Existe uma invisibilidade em torno dos casais lésbicos muito incômoda. Pergunte às amigas lésbicas e elas contarão sobre como é chato ir acompanhada à balada e ter que aguentar piadas sobre o desejo dos homens de fazer um "a três" ou o desrespeito dos mesmos quando percebem a configuração. Essa invisibilidade parece se repetir nos casais do BBB e até mesmo em Marina e Clara.

Neste sentido, o casal Estela e Teresa são uma quebra de "normas sociais" ainda maior, pois ambas são idosas. Em nossa sociedade, existe a ideia de que os idosos não têm sexualidade, trazendo péssimas implicações como a falta de privacidade nas instituições que moram ou em suas próprias casas e descuidos com relação à sua saúde sexual. Embora ainda seja um casal que atinge alguns padrões sociais (especialmente financeiro), o fato de quebrarem a heteronormatividade E a crença de que as pessoas idosas são assexuadas provavelmente contribui para que alguns telespectadores rejeitem o casal.

Alguns pontos para reflexão:

- A rejeição das aparições de Estela e Teresa ficam muito claras especialmente nas redes sociais e nos canais de reclamação da Globo. Entretanto, não temos medidas do quanto também houve mudanças positivas e aceitações em pessoas que antes não refletiam sobre este assunto. Parece-me que há uma mobilização de alguns grupos sociais para repelir essas aparições e esforços midiáticos para reafirmar essa rejeição, e isso me faz concluir que  é precipitada a conclusão de que há, de fato, uma rejeição majoritária de Estela e Teresa.

- As novelas brasileiras são o grande veículo de normatividade na mídia: elas ditam regras o tempo todo. Desde as mais simples, relacionadas à moda, esmaltes e cortes de cabelo, até as mais complexas como padrões de comportamento.

Neste sentido, grupos inteiros deixam de ser representados nas novelas ou o são de maneira desvalorizada: os negros que ainda hoje são minorias no elenco; as diferentes configurações familiares (em geral, mostra-se pai, mãe e filhos, deixando de lado as famílias formadas por avós, tios, tribos, instituições, etc); a própria adoção por muito tempo foi retratada de uma maneira negativa e polêmica. 

Foi através das lutas dos movimentos sociais por representatividade que se tornou possível iniciar a inclusão da diversidade nas novelas - e ainda assim, vamos devagar. As pessoas com deficiências continuam sendo pouco representadas, por exemplo. No caso dos "casais homossexuais" (que seria ótimo se pudéssemos chamar de casais e ponto) é importante que eles estejam presentes nas novelas pela questão da representatividade. Mas há muito o que avançar em outros aspectos, pois essa representação continua sendo feita dentro de uma normatividade.

terça-feira, 19 de maio de 2015

18 de maio: dia de resistência

18 de maio é o dia de comemoração da "Luta Antimanicomial". Mas o que isso quer dizer?

Que há tempos existem pessoas que não se conformam com a exclusão daqueles que não "cumprem" o papel de "normalidade" ditado pela sociedade como correto;
Que não é natural excluir as pessoas sob as amarras de nomes diagnósticos complicados e menos ainda sob o estigma de "malucas", "doidas" ou "extraviadas";
Que todos temos direitos e merecemos respeito.

18 de maio significa resistência. É a marca de um movimento de luta para que pessoas marginalizadas devido a condições psíquicas consideradas "anormais" tenham acesso à cidadania.  
(Para saber um pouquinho mais sobre a história da Luta, tem esse link aqui, por exemplo, contando como ela se deu em Bauru).

Abaixo, reproduzo um trecho do livro "Holocausto Brasileiro", da Daniela Arbex. É uma leitura instigante e necessária sobre a história do Colônia, Hospital Psiquiátrico de Barbacena-MG.
O livro conta a história do genocídio de mais de 60 mil pessoas em um Hospital
Psiquiátrico mineiro. As imagens são impressionantes. 
Este capítulo narra, especificamente, o resgate das pessoas que chegaram ainda crianças ao Hospital Psiquiátrico e ficaram encarceradas por mais de dez anos em condições sub-humanas.

"O apito da chaleira avisava que a água havia levantado fervura. Em pouco tempo, o cheiro de erva-cidreira impregnava os cômodos da Casa Amarela. Na mesa de oito lugares, o pão repartido simbolizava o instante da celebração. Os convidados foram chegando e tomando, cada um, seu lugar na sala. Os moradores sentaram-se no chão. Todos sabiam que aquele 21 de novembro de 1998, em Belo Horizonte, era um momento único, quase improvável. [...] Após dezoito anos de luta, Mercês Hatem Osório pôde, finalmente, realizar um sonho antigo: oferecer aos meninos de Barbacena, agora adultos, o lar que nunca tiveram.

Dos trinta e três meninos e meninas enviados para o Colônia, seis vivem (quatro deles vivem no Lar Abrigado descrito acima).

Quando eles chegaram a Belo Horizonte, em 1980, não pareciam meninos, mas bichos assustados. Estavam sujos, não sabiam comer, nem ao menos usar o banheiro. Passaram a infância sem receber estímulos e, por isso, o quadro de deficiência agravou-se. Silvio, por exemplo, o menino confundido com um cadáver em 1979, mal conseguia se sentar. Rastejava em boa parte do tempo.


Silvio fotografado no Hospital Colônia quando criança. Foi confundido com um
cadáver no momento da fotografia.
- O Silvio, como os outros, chegou aqui imundo. Vieram para passar um dia e acabaram ficando a vida inteira. Quem os recebeu ficou chocado com o estado dos vinte e tantos meninos de Barbacena. Fizemos todo um trabalho de resgate da cidadania. Nenhum dos quatro vivos fala, mas a gente entende o que eles querem, inclusive seus gritos. O bonito de verdade é que eles não têm mais o olhar perdido.

As impressões são da coordenadora do Lar Abrigado, irmã Mercês, como é chamada a freira. Ela aprendeu a ensinar sem cartilha e preparar as aulas com base no universo dos alunos. Com a ajuda deles, escrevia os próprios livros didáticos, cujo material era retirado da vivência de cada um. O método humanizado prosperou. [...] Como se recusou a adotar as palavras de ordem dos anos de chumbo nas suas lições, teve que deixar o país, indo para Roma (onde conheceu Franco Basaglia)


[Ao voltar para o Brasil] a irmã desafiou a incredulidade da classe médica ao propor que os sobreviventes do holocausto brasileiro conquistassem o direito a uma casa. Quando o imóvel começou a ser montado em terreno anexo ao hospital, ela iniciou o processo de transição. Diariamente, levava os futuros moradores até lá, para passarem algumas horas.


- Vocês vão morar aqui - dizia Mercês.

Quando a mudança foi concretizada, a psicopedagoga começou a ensinar do seu jeito. 

- Agora temos uma casa nova. Então, precisamos aprender a não fazer xixi no chão.

Durante meses, irmã Mercês levava os filhos de Barbacena ao banheiro, onde passava pelo menos quarenta minutos com cada um, no intuito de fazê-los aprender a usar o sanitário. Não desanimava nem quando era surpreendida por urina e fezes pela casa. 

- Que pena que você fez no lugar errado.

Além de evacuarem no chão, os meninos estava habituados a passar fezes na cabeça uns dos outros. [...] Para ajudá-los a se alimentar sozinhos, a religiosa passou a colocar o prato de almoço na mesa. Oferecia uma colherada a cada um e perguntava:

- Está gostoso, meu filho? Seu prato está lá na mesa. Sua caneca de água também.

No início, não foi fácil ensiná-los. A Nina, por exemplo, demorou seis meses para aceitar um colchonete, algo bem diferente para quem dormiu noites a fio sobre o chão. 

Mais tarde, pediu aos médicos que diminuíssem as medicações que mantinham os meninos robotizados. Queria conhecer a personalidade deles e como agiam sem os efeitos da medicação.


- Mas não podemos fazer isso, irmã. Não vê que ela está muito agitada? Sem remédios, vai quebrar a casa inteira - ponderou um dos médicos referindo-se à Nina.

- Agitada como?

Com sensibilidade, ela acabou descobrindo que as tais crises nervosas de Nina coincidiam com o período menstrual da paciente. Como ela não tinha condições de verbalizar o momento de TPM, nem as cólicas, ficava irrequieta. Por isso, a religiosa passou a marcar na agenda a data de menstruação de cada uma. Quando a choradeira começava, iniciava o "tratamento preventivo" com óleo de prímula.


- Olha, Nina, é chato mesmo, mas nós vamos te ajudar.

Com olhar holístico, Mercês fez cessar as tão temidas crises de agressividade das meninas.
Assim, a coordenadora foi quebrando tabus. Mostrou que os meninos não gostavam de ficar pelados, como parecia, apenas foram acostumados assim. Se não usavam roupas, é porque não tinham acesso a elas. No Lar Abrigado, eles passaram a vestir cuecas e calçar sapatos, após mais de uma década sentindo a aspereza e o frio do chão. Ficaram tão encantados com a possibilidade de usar tênis e sandálias, que no início não aceitavam ficar descalços

- No início, a Lu não queria tirar o sapato para dormir. Eu deixava, porque sabia que era a única coisa que ela gostou e teve na vida. Na hora do banho, ela chorava porque tinha que tirar o calçado. Então, pensei: "Vamos comprar um chinelo pra hora do banho". Funcionou.


Mercês também aboliu a raspagem dos cabelos, porque defendia que cada um precisava ter sua identidade. Assim foi feito. 
Após convencer a comunidade terapêutica da capacidade dos meninos se desenvolverem, a coordenadora entendeu que precisava vencer o preconceito social. Cansou de ver as pessoas atravessando a rua para não passarem em frente à Casa. Fazia questão de convidar os moradores do entorno para conhecer o imóvel. Desconcertados diante da atitude de gentileza, muitos se viam obrigados a entrar. Acabaram pegando simpatia. Alguns vizinhos começaram a visitar regularmente os meninos, aprenderam seus gostos, compraram presentes. 

Mercês só sossegou quando os olhares de desprezo passaram a exibir compreensão."





Apesar dessas histórias e das outras milhares que aconteceram - E ACONTECEM - ainda hoje no Brasil, a grande mídia não abordou o assunto. 
Aliás, fez o contrário. Reafirmou o estigma.
No Jornal Nacional, Bonner falou sobre um homem cujo cavanhaque era bem grande e o descreveu como quem tem "cara de maluco". Ao vivo, ainda disse que as pessoas reclamaram sobre isso nas redes sociais (ótimo!!!) e que elas tinham razão. Por um instante achei que ele havia sido acometido pelo bom senso, e que diria que ser chamado de maluco não deve ser ofensivo ou negativo. Mas aí ele piorou tudo. Disse que "conhece um monte de gente com um cavanhaque daquele e elas não são malucas".
Tão vergonhoso quanto realizar ações absurdas de exclusão é ser conivente com elas. 

Água-Salgada

Sede.

Minha garganta 
Queima
Minha língua 
Se inquieta.
Vejo água
E ela é traiçoeira.

Bebo.

Fantasiada de alívio,
Água-salgada.

Te tomo 
E não me sacio,
Te choro
E seu escorrer 
Me arde.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Corpo "pai de família"?

Me pediram pra escrever sobre o "Dad Bod" ou "Dad Body" ou "Corpo de pai de família". 
E eu escrevi :) 
(obrigada, Paulinha querida!)
A reportagem é dela e a analise-zinha do final é minha.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tem...alguém...aí?

Contextualizando: A Siri é a assistente de voz da Apple e foi lançada em português esta semana no Brasil, servindo, basicamente, para utilizar a voz como comando para fazer pesquisas na internet, realizar ligações, enviar mensagens. Bacaninha! 
Mas o mais curioso vem aí: algumas pessoas têm usado este recurso para falar. Falar, falar, falar, sobre qualquer coisa. A Paulinha, jornalista da Tribuna de Araraquara, estava fazendo uma matéria sobre isso (sai na edição de amanhã) e me perguntou: "Falar com a Siri, nesse sentido, é saudável?", e isso me movimentou.  Eu escrevi para ela, então.

Nossa atenção vem sendo disputada acirradamente no mundo moderno: temos celulares com mili aplicativos, computadores, jogos, televisão e  demandas da vida offline como cuidar dos filhos, trabalhar, estudar, fazer exercícios, produzir, ler (...)

Quando vemos, nosso tempo foi consumido – e mal percebemos onde! 

Neste contexto contemporâneo, a maneira como ouvimos uns aos outros mudou significativamente, as conversas longas de olhos nos olhos, os conselhos e reflexões se tornaram muito mais rápidos e raros.


Eu sei que vocês fazem isso sim! (e eu também)

Embora as pessoas escutem umas às outras, frequentemente não se ouvem com qualidade. 

Nós estamos imersos em nossos próprios mundos virtuais e reais e temos dificuldades para sair dele.

O individualismo é um princípio básico de nossa sociedade que compramos todos os dias. Ficamos fechadinhos em nossos casulos e por meio das redes sociais temos a falsa sensação de compartilhamento, quando na verdade estamos mais isolados que nunca.


Quadrinhos Ácidos 

O ouvir com atenção não é uma habilidade natural, temos que aprender, exercitar, e ensinar às crianças sobre isso. 
Este ensino pode ser feito de modo sistemático ou a partir da maneira mais simples possível: dando o modelo. 

(muitas vezes mal ouvimos as historinhas de escola que os pequenos nos contam – e ficamos chateados quando eles nos trocam por seus jogos de celular e ignoram o que dizemos)


Se o uso da Siri é saudável? Não existe uma resposta, mas ele escancara uma característica sintomática de nosso tempo: estamos carentes, não temos quem nos ouça e não sabemos ouvir.




O que fazer, então?

( ) Senta e chora.
( ) Compra um Iphone e habilita a Siri.
(x) Se mexe.

Podemos ficar disponíveis: destinar mais tempo à comunicação real que à virtual. 
Podemos olhar nos olhos, tocar nos ombros, oferecer atenção, demonstrar preocupação. Fazer perguntas sobre o dia do outro, sobre a prova de ontem ou como se sente sobre a apresentação de amanhã. Podemos largar o whatsapp por dez minutos enquanto jantamos e ignorar uma notificação do facebook no meio de um desabafo importante - ou de uma historia engraçada.
Às vezes uma olhadinha no celular é suficiente pra pessoa perder o fio da conversa e a vontade de falar. Algumas chamadas não são imediatas, e não há nada mais urgente que um bom blá-blá-blá.

É muito comum ouvirmos depois de atendimentos psicológicos "Nossa, só de falar eu já me sinto bem melhor" ou "Puxa, obrigada por me ouvir". Esses movimentos são importantes pra nós, psicos, mas não precisam ser restritos a nossos espaços!
(uma conversa de bar também pode ser deliciosamente esclarecedora se o ouvir for atencioso)

Sejamos solidários!

(Ou, sem mais delongas, larga a Siri, o whats e o messenger e vai perguntar a alguém um "Tudo bem?" mais honesto)

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mulher, adolescente, sob tutela do estado: a história de uma açãozinha

A menina adolescente moradora de abrigos acumula estigmas: sofre os efeitos do machismo, da falta de apoio\políticas públicas para adolescentes e das incertezas que significam estar sob tutela do Estado.

A situação dos abrigos brasileiros, em geral, é precária. As moradoras, cujas idades variam de poucos meses a 18 anos, estão institucionalizadas por razões diferentes e inúmeras.  Enfrentam desafios junto aos funcionários e funcionárias que lutam cotidianamente por melhorias. Uma dessas dificuldades - que pode parecer secundária para algumas pessoas - reside no fato de que, sem condições para serem autônomas financeiramente e sem recursos para obter objetos de consumo, essas meninas vestem o que dá.  Nem sempre o que escolheram, ou o que melhor expressa como gostariam de ser vistas. 

Refletindo sobre tais pontos surgiu uma ação: uma pequena doação de roupas para um grupo de meninas abrigadas em Bauru. Eu a disparei: propus que os amigos do facebook separassem as peças e as busquei em suas casas. Até aí, corriqueiro.

Mas quando fui separar as roupas por categorias, desvirar as que estavam do avesso e dobrá-las, percebi algo muito interessante: eram peças incríveis. Peças notavelmente bem cuidadas, cheirosas, algumas com etiquetas. Peças de todos os tamanhos e jeitos, estilos, e grande parte delas certamente ainda seria usada por suas donas.

Sapatos, pulseiras, bolsas também entraram na dança, assim como sutiãs, biquínis e calcinhas. As doadoras separaram carinhosamente aquilo que doaram, o que me surpreendeu.
Surpreendeu porque eu costumava ver a doação como meio de "passar pra frente" o que "não serve mais". Mas minhas parceiras de campanha não, elas viram como algo muito mais profundo.

Então, este é um pequeno post de agradecimento: pelas 21 meninas, que certamente gostaram das roupas novas, e por mostrarem que carinho e cuidado cabem em todos os lugares.

Abaixo, fotos da ação, e de algumas peças.


479 peças no total sendo dobradinhas e organizadas.
09 camisetes, 02 camisas, 02 coletes, 08 pares de sapatilhas, 02 cachecóis, 02 sandálias, 05 cintos, 01 edredron, 02 bolsas, 01 porta-jóias, 11 pulseiras, 03 tiaras, 03 anéis, 01 colar, 01 par de chinelo, 03 blazers, 02 bolsas de pano, 14 shorts, 14 saias, 03 calcinhas, 08 sutiãs, 05 conjuntos de biquínis, 2 macacões, 11 vestidos, 02 jaquetas, 16 calças e 155 blusas. E muita boa vontade! 

Apaixonantes! 


*.*


Muitas ideias...









Gratidão à Isabela Santilli e sua amiga Raissa Moraes, Kele Silva, Maira Bittar Galdi, Ana Carolina, Ana Claudia Bortolozzi (Cau) e suas filhas Bruna e Beá, Celina Adreila e Isabela Florindo
Gratidão à minha mãe Silvia e minha irmã Aninha que me ensinaram que doar e receber deve ser algo natural, e ao Lucas que além de fotógrafo, motorista e companheiro, deu uma baita ajuda pra levar tudo pro abrigo. E, claro, à Flávia, psicóloga admirável que fez fermentar a ideia inicial. Juntos e juntas vamos conquistando com nossas pequenas açõezinhas :)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Pedacinhos de histórias: violências do nosso todo-dia.

Para entrar no clima do post, assistam este vídeo: Micromachismos. É curtinho, nem precisa ligar o som (indicação da Marina Zotesso ).

Este é um texto escrito por diversas mãos. 
Saiu de uma conversa sobre as pequenas-grandes violências que sofremos em nosso dia-a-dia por sermos mulheres. 
A ideia de expor pedacinhos de nossas histórias é que outras pessoas leiam e:

• Primeiramente, percebam que há violências neles. 
• Sintam-se identificadas, vejam que indignar-se é necessário.
• Notem que algumas atitudes que costumamos enfrentar e discursos que frequentemente ouvimos, não são naturais. Devem deixar de acontecer. 

Nos entristece que ainda tenhamos histórias* como estas, a seguir, pra contar. Mas nos torna fortes saber que não estamos sozinhas.

1) Sobre andar na rua.

Ser mulher em uma sociedade machista significa que até mesmo sair para andar na rua pode ser um desafio - bem desagradável. Alguns discursos delirantes dizem que nós, mulheres, temos que nos sentir "lisonjeadas" por mexerem conosco. Afinal, estamos sendo aprovadas por um bando de machos.
Não, não é assim que nos sentimos:

"Não saio mais para caminhar na cidade. Mesmo com fone de ouvido e ouvindo música alta, não dá para aguentar os homens te encarando, mexendo e falando coisas do tipo 'queria te chupar inteirinha'. Agora só vou à academia ou em parques próprios pra isso. Caminhar na rua sozinha nunca mais., Araraquara/SP.

A semana começou em um bloquinho de carnaval, felizmente foi um bloquinho tranquilo, e somente no final alguns homens começaram a ser inconvenientes, um deles me segurou pelo braço enquanto eu passava e o outro, quando levou um fora, me chamou de chata. Esse segundo me deixou revoltada, porque o chato e abusado no caso foi ele. NÃO É NÃO. Durante a semana eu fiquei muito tempo em casa porque tinha bastante coisa do mestrado para fazer, logo eu fui "pouco" assediada. O que é mais triste ainda, pensar que para não sermos assediadas precisamos ficar em casa, quando cheguei a esse conclusão me peguei mais uma vez revoltada e triste. De qualquer jeito, na quinta-feira fui ao shopping tomar um sorvete, e como o shopping é do lado de minha casa sempre vou vestindo o que estiver usando em casa, a não ser seja um pijama - mas confesso que já fui de blusa de pijama sim, hahaha. Enquanto descia a escada rolante tomando meu sorvete fui secada por dois amigos, aquilo me deu um nojo, e eu parei de tomar/chupar meu sorvete na hora para frear qualquer pensamento machista que eles pudessem ter. Voltei pra casa com vontade de tacar a minha casquinha no meio da cara dos dois.” , Bauru/SP.


Elogio? 

2) Sobre desvalorização e assédio no trabalho.

O assédio no trabalho é tão recorrente que existem estudos especificamente sobre este assunto, e algumas leis trabalhistas voltadas para este contexto. 
É muito frequente nos depararmos com situações nas quais: desempenhamos a mesma função de um colega homem, e este ganha mais; descredibilizam nossos discursos usando justificativas distantes do trabalho como "Você está levando para o pessoal" ou "Você está louca!". Enquanto isso, na mesma situação, com funcionários homens, há argumentações bem elaboradas.
No caso específico das universidades, o abuso contra mulheres é feito de diversas formas: desde o momento do trote (em algumas universidades, as meninas têm que desfilar, são "leiloadas" a seus veteranos, sofrem estupros), até a pós graduação, momento no qual podem ser intimidadas com ameaças de cortes de bolsas e projetos. Nem mesmo as professoras estão isentas: frente a pares homens, muitas vezes são silenciadas. 

“[no espaço acadêmico] Colega homem faz exatamente a mesma coisa [que eu já fiz] = Muito bem colocado, obrigado! Eu falo cinco vezes que o experimento precisa ter isso e isso = nada. Colega homem fala uma vez que o experimento precisa ter isso e isso = Noooooossa! Bem pensado! Nunca tinha percebido!." , São Carlos/SP.

"É muito comum, na universidade, alguns professores se sentirem à vontade demais em situações nas quais não estamos dando nenhum sinal de interesse. Às vezes são coisas mais discretas, como toques nas costas, no ombro ou nas mãos. Às vezes um jeito invasivo de olhar. E em alguns momentos chegam a convites para sair, mensagens. Tenho a impressão que eles sentem que podem fazer isso porque estão em uma posição privilegiada., Bauru/SP.

3) Sobre os assédios e invasões de espaço

Frequentemente sentimos nossos espaços invadidos. Espaços físicos. 
Parece que há uma autorização para entrar no que é nosso, mas essa autorização não foi dada por nós! Foi dada por uma prática cultural ridícula na qual os homens aprendem que podem roçar em nós no metrô, no ônibus, na rua. 
NÃO PODEM. 

“[sobre carona para ir de uma cidade a outra] Teve uma semana que eu tava bem cansada e resolvi pegar carona ao invés de oferecer. Bom, só tinha menino oferecendo, então acabei fechando com ele mesmo - sim, é óbvio que prefiro sempre pegar carona com mulher pra não correr nenhum 'risco'. Pois bem, no carro só tinha eu de mulher e mais três meninos de carona. No meio da viagem o menino que tava no meio do banco de trás começou a 'abrir a perna', tipo me apertando no canto do carro. Achei ele mega folgado e sem noção, coloquei minha bolsa entre a gente pra ele se ligar que tinham três pessoas atrás e que não rolava ser o folgado. Ok, acho que ele percebeu e a viagem seguiu de boa. Até que eu cheguei e casa e o infeliz me mandou uma mensagem inbox, mais folgado ainda, querendo sair. Aí eu fiquei me perguntando: em que momento dei essa liberdade?! Em que momento passei meu face ou qualquer outro contato?! Em nenhum! O babaca só era um machista achando que podia dar em cima de qualquer pessoa. Assim, fiquei puta!” , Ribeirão Preto/SP.

Existe um público que tem autorização científica para fuçar em nosso corpo, mas não necessariamente faz isso de forma ética. Neste caso, falamos especificamente sobre os médicos, entretanto situações parecidas podem ocorrer com outros profissionais da saúde com funções similares: enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, etc.

Eu tenho mil histórias pra contar. Como todas nós, né. Mas a mais recente fui eu ficando encucada com a minha última ida ao ginecologista - fui num cara que não era meu gineco usual - e, assim que ele viu minha tatuagem, que fica abaixo dos seios, começou a fazer MAIS perguntas sobre minha vida sexual. "Sente dor no sexo?"; Tudo ok."Vida sexual ativa?"; Sim. "Quanto tempo com o último parceiro?"; Respondi. "Apenas um?" Er... sim. "Sexo anal?" Er... já fiz. "Gosta?" ??? Isso tudo enquanto enfiava um espéculo em mim e fazia o papanicolau. Eu fiquei na dúvida se ele apenas estava perguntando mais porque tinha um estilo diferente do meu anterior, ou se era só porque era a primeira consulta, ou se era tudo coisa da minha cabeça porque a tatuagem é recente e não tinha ainda encarado mostrar ela pra médico... Mas é aquela coisa. Um exame invasivo, perguntas invasivas e a gente é posta como louca se acha o cara invasivo, afinal mulher tem de se acostumar a abrir as pernas desde a adolescência por saúde pra esses caras misóginos nos examinarem... Bom, nunca mais volto nesse aí.” , Salvador/BA.



4) Sobre a pressão social para cumprir determinados papéis.

Ainda hoje existe uma espécie de fantasma que ronda nossas vidas dizendo baixinho ao pé do ouvido "seu lugar é em casa!" ou "você precisa ter filhos, casar, passar, lavar, cozinhar e sorrir". E o pior de tudo é que esse fantasma fica escondidinho. Nós o ouvimos numa frase aqui, em outra ali.

Mas o pior foi hoje....no feriado. Meus pais moram em um condomínio onde tem muitas crianças e adolescentes que ficam brincando na rua. Então eu escutei a minha mãe contar que o porteiro estava falando - vai vendo - de duas meninas que ficavam andando com alguns meninos. Ela pensava que todos eram amigos, mas o porteiro disse que os meninos "fizeram a festa" com as duas. E que a mãe de uma delas ligava na portaria cinco horas da manhã perguntando se ele sabia onde estava a filha dela, e que ele respondia "a sua eu não sei, mas a minha tá em casa". Como se mulher fosse bicho pra prender em casa!!!!!!! E ele ainda completou afirmando que já já uma delas aparece grávida, porque fica entrando nas obras com os meninos. Foi de doer o coração, os ouvidos e tudo! Eu só falei pra minha mãe "mas dos meninos ninguém fala né?, São Carlos/SP.

“[a experiência mais marcante] foi terminar um relacionamento de quase 3 anos porque a família do meu ex dizia que mulher não tem que estudar, tem é que casar...e eu tinha entrado na faculdade.۞, Bauru/SP.



5) Sobre ser lésbica. 

A violência contra a mulher tem inúmeras facetas: e uma delas tem a ver com o ser lésbica.
Certa invisibilidade parece rondar o universo lésbico, uma invisibilidade nociva. 

"Uma vez eu e minha namorada fomos a um restaurante japonês e pedimos um rodízio da promoção para casal. Na hora de pagar a conta, o garçom disse que o dono do estabelecimento não aceitava casais homossexuais como casal. Reivindicamos nossos direitos e eles disseram aceitar pelo fato do dono não estar presente e para não haver nenhum tipo de transtorno. Nunca mais voltamos ao local". , Ribeirão Preto/SP.

Existe um ponto especificamente difícil: a crença de que o casal lésbico existe com a função de servir de fantasia sexual para o homem.
Homem: você realmente acha que o mundo gira em torno do seu umbiguinho, né, bem? 
Então, não.

“[o que acontece sempre de dizerem] Você é muito bonita pra ser lésbica. E sempre perguntam do a três. É foda. É o tempo todo. Se eu falar o que aconteceu comigo semana passada vocês não vão acreditar também. Esse foi inédito e eu achei um dos mais agressivos: um menino, supostamente meu amigo, me falou que não consegue entender como alguém gosta do mesmo sexo porque o cérebro não gosta do igual. O cérebro gosta da novidade, da curiosidade. Ele quis me explicar com ciência que era impossível. Tipo, qual o problema dessas pessoas? Ele falou que duas mulheres juntas já conhecem todo o corpo da outra e não tem graça. Não é novo, não há descobertas. E ainda falou que mesmo que usássemos brinquedinhos ia ser algo q não é natural e o corpo só gosta do que é natural. Você acredita que eu sou obrigada a ouvir isso?” , Bauru/SP.

“[acontece sempre]de mandarem a gente beijar para provar que somos namoradas também. Sempre falam pra gente se beijar e continuam dando em cima mesmo sabendo que namoramos. Não respeitam. , Ribeirão Preto/SP.


O que queremos sinalizar é que estamos esgotadas, e permanecemos unidas para desconstruir tudo isso. Exigimos respeito e igualdade, não aceitamos mais essas violências. Embora as tentativas de nos silenciar sejam bastante agressivas, estamos firmes!

Encerrando a conversa e representando muito bem como nos sentimos:

Andar na rua é foda. De repente você fica surda. Você não ouve mais quando um amigo passa por você e buzina, ou quando um carro quer chamar a sua atenção para um perigo, porque buzina é quase sempre uma agressão e você não quer mais ouvir agressões. Você machuca seus tímpanos com música altíssima nos fones, e não adianta porque os olhares são suficientes para intimidar. Você deixa de sorrir, porque sorrir ~incita~ agressões que a deixam para baixo. Mas descobre que não sorrir também. Você deixa de sair de casa porque "está tarde", mas é sempre tarde para quem é mulher. Você passa calor porque roupa curta é ~justificativa~ de agressão. Descobre que roupas ~comportadas~ também são, porque independe da roupa o problema é o genêro. Você deixa de ouvir, deixa de vestir, deixa de caminhar, deixa de existir. Você só não é deixada em paz.” , Manaus/AM.


*Usamos símbolos no lugar de nossos nomes nos relatos, porque temos medo. Sabe qual a razão de termos medo? Nossos agressores não são como o bicho papão ou o homem do saco - distantes e invisíveis. Eles são nossos chefes, nossos primos, namorados ou amigos. Nossos orientadores, vizinhos, porteiros de nosso prédio. E sabe o que mais? Se você pratica qualquer tipo de violência, como as citadas aqui, por exemplo, você é agressor. Desculpa te contar assim, beijos.