Que há tempos existem pessoas que não se conformam com a exclusão daqueles que não "cumprem" o papel de "normalidade" ditado pela sociedade como correto;
Que não é natural excluir as pessoas sob as amarras de nomes diagnósticos complicados e menos ainda sob o estigma de "malucas", "doidas" ou "extraviadas";
Que todos temos direitos e merecemos respeito.
18 de maio significa resistência. É a marca de um movimento de luta para que pessoas marginalizadas devido a condições psíquicas consideradas "anormais" tenham acesso à cidadania.
(Para saber um pouquinho mais sobre a história da Luta, tem esse link aqui, por exemplo, contando como ela se deu em Bauru).
Abaixo, reproduzo um trecho do livro "Holocausto Brasileiro", da Daniela Arbex. É uma leitura instigante e necessária sobre a história do Colônia, Hospital Psiquiátrico de Barbacena-MG.
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O livro conta a história do genocídio de mais de 60 mil pessoas em um Hospital Psiquiátrico mineiro. As imagens são impressionantes. |
"O apito da chaleira avisava que a água havia levantado fervura. Em pouco tempo, o cheiro de erva-cidreira impregnava os cômodos da Casa Amarela. Na mesa de oito lugares, o pão repartido simbolizava o instante da celebração. Os convidados foram chegando e tomando, cada um, seu lugar na sala. Os moradores sentaram-se no chão. Todos sabiam que aquele 21 de novembro de 1998, em Belo Horizonte, era um momento único, quase improvável. [...] Após dezoito anos de luta, Mercês Hatem Osório pôde, finalmente, realizar um sonho antigo: oferecer aos meninos de Barbacena, agora adultos, o lar que nunca tiveram.
Dos trinta e três meninos e meninas enviados para o Colônia, seis vivem (quatro deles vivem no Lar Abrigado descrito acima).
Quando eles chegaram a Belo Horizonte, em 1980, não pareciam meninos, mas bichos assustados. Estavam sujos, não sabiam comer, nem ao menos usar o banheiro. Passaram a infância sem receber estímulos e, por isso, o quadro de deficiência agravou-se. Silvio, por exemplo, o menino confundido com um cadáver em 1979, mal conseguia se sentar. Rastejava em boa parte do tempo.
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Silvio fotografado no Hospital Colônia quando criança. Foi confundido com um cadáver no momento da fotografia. |
As impressões são da coordenadora do Lar Abrigado, irmã Mercês, como é chamada a freira. Ela aprendeu a ensinar sem cartilha e preparar as aulas com base no universo dos alunos. Com a ajuda deles, escrevia os próprios livros didáticos, cujo material era retirado da vivência de cada um. O método humanizado prosperou. [...] Como se recusou a adotar as palavras de ordem dos anos de chumbo nas suas lições, teve que deixar o país, indo para Roma (onde conheceu Franco Basaglia).
[Ao voltar para o Brasil] a irmã desafiou a incredulidade da classe médica ao propor que os sobreviventes do holocausto brasileiro conquistassem o direito a uma casa. Quando o imóvel começou a ser montado em terreno anexo ao hospital, ela iniciou o processo de transição. Diariamente, levava os futuros moradores até lá, para passarem algumas horas.
- Vocês vão morar aqui - dizia Mercês.
Quando a mudança foi concretizada, a psicopedagoga começou a ensinar do seu jeito.
- Agora temos uma casa nova. Então, precisamos aprender a não fazer xixi no chão.
Durante meses, irmã Mercês levava os filhos de Barbacena ao banheiro, onde passava pelo menos quarenta minutos com cada um, no intuito de fazê-los aprender a usar o sanitário. Não desanimava nem quando era surpreendida por urina e fezes pela casa.
- Que pena que você fez no lugar errado.
Além de evacuarem no chão, os meninos estava habituados a passar fezes na cabeça uns dos outros. [...] Para ajudá-los a se alimentar sozinhos, a religiosa passou a colocar o prato de almoço na mesa. Oferecia uma colherada a cada um e perguntava:
- Está gostoso, meu filho? Seu prato está lá na mesa. Sua caneca de água também.
No início, não foi fácil ensiná-los. A Nina, por exemplo, demorou seis meses para aceitar um colchonete, algo bem diferente para quem dormiu noites a fio sobre o chão.
Mais tarde, pediu aos médicos que diminuíssem as medicações que mantinham os meninos robotizados. Queria conhecer a personalidade deles e como agiam sem os efeitos da medicação.
- Mas não podemos fazer isso, irmã. Não vê que ela está muito agitada? Sem remédios, vai quebrar a casa inteira - ponderou um dos médicos referindo-se à Nina.
- Agitada como?
Com sensibilidade, ela acabou descobrindo que as tais crises nervosas de Nina coincidiam com o período menstrual da paciente. Como ela não tinha condições de verbalizar o momento de TPM, nem as cólicas, ficava irrequieta. Por isso, a religiosa passou a marcar na agenda a data de menstruação de cada uma. Quando a choradeira começava, iniciava o "tratamento preventivo" com óleo de prímula.
- Olha, Nina, é chato mesmo, mas nós vamos te ajudar.
Com olhar holístico, Mercês fez cessar as tão temidas crises de agressividade das meninas.
Assim, a coordenadora foi quebrando tabus. Mostrou que os meninos não gostavam de ficar pelados, como parecia, apenas foram acostumados assim. Se não usavam roupas, é porque não tinham acesso a elas. No Lar Abrigado, eles passaram a vestir cuecas e calçar sapatos, após mais de uma década sentindo a aspereza e o frio do chão. Ficaram tão encantados com a possibilidade de usar tênis e sandálias, que no início não aceitavam ficar descalços.
- No início, a Lu não queria tirar o sapato para dormir. Eu deixava, porque sabia que era a única coisa que ela gostou e teve na vida. Na hora do banho, ela chorava porque tinha que tirar o calçado. Então, pensei: "Vamos comprar um chinelo pra hora do banho". Funcionou.
Mercês também aboliu a raspagem dos cabelos, porque defendia que cada um precisava ter sua identidade. Assim foi feito. Após convencer a comunidade terapêutica da capacidade dos meninos se desenvolverem, a coordenadora entendeu que precisava vencer o preconceito social. Cansou de ver as pessoas atravessando a rua para não passarem em frente à Casa. Fazia questão de convidar os moradores do entorno para conhecer o imóvel. Desconcertados diante da atitude de gentileza, muitos se viam obrigados a entrar. Acabaram pegando simpatia. Alguns vizinhos começaram a visitar regularmente os meninos, aprenderam seus gostos, compraram presentes.
Mercês só sossegou quando os olhares de desprezo passaram a exibir compreensão."
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Aliás, fez o contrário. Reafirmou o estigma.
No Jornal Nacional, Bonner falou sobre um homem cujo cavanhaque era bem grande e o descreveu como quem tem "cara de maluco". Ao vivo, ainda disse que as pessoas reclamaram sobre isso nas redes sociais (ótimo!!!) e que elas tinham razão. Por um instante achei que ele havia sido acometido pelo bom senso, e que diria que ser chamado de maluco não deve ser ofensivo ou negativo. Mas aí ele piorou tudo. Disse que "conhece um monte de gente com um cavanhaque daquele e elas não são malucas".
Tão vergonhoso quanto realizar ações absurdas de exclusão é ser conivente com elas.