sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Sobre baratas e pessoas imprevisíveis

Esta noite eu estava dormindo um sono gostoso, profundo. Fui pra cama cedo e não tinha acordado nenhuma vez - promessa de horas bem dormidas. 
Eis que por volta das três e meia da manhã eu senti uma cócegazinha no pescoço. Em geral é muito difícil acontecer de eu acordar e ligar a luz, mas dessa vez eu fiz isso - obrigada universo! Era uma barata no meu pescoço! 
Sem pensar muito joguei ela pro lado e dei um pulo pra fora da cama. Peguei o aerosol e o chinelo e fui pra cima dela quando...cadê?
Sumiu.
Procurei o máximo que pude e não a encontrei em nenhum lugar. 
Óbvio que depois de toda essa novela eu não ia voltar a dormir na minha cama, por isso fui para o sofá. Deitei. Senti umas coceiras e todas elas eram uma forte ameaça.
Resumo da história: já são 5 horas e eu ainda não consegui dormir.

Mas não é sobre a angústia noturna da barata que eu vim escrever. É da ideia que ela me deu.

Outro dia alguém* me disse que o grande problema das baratas é que elas são descontroladas. Você nunca sabe para onde vão, se voam, se são mutantes, etc. 
Fica com um SBP e um chinelinho na mão sem entender muito bem o que fazer. 

Isso gera uma ansiedade louca do tipo:


Acontece que nós precisamos de previsibilidade pra nos sentirmos seguros. Necessitamos saber basicamente o que vem a seguir para ter alguma sensação de controle que nos permita relaxar um pouco. 

Essa ansiedade, essa coisa esquisita que deixa a gente em estado de alerta e defensiva também pode ser sentida quando estamos interagindo com pessoas imprevisíveis.

No dia-a-dia chamamos isso de "pisar em ovos".
"Eu vivo pisando em ovos com aquela pessoa" - porque nunca se sabe quando eles vão quebrar. 

Conviver com pessoas imprevisíveis é muito ansiogênico. 
Vira e mexe eu vejo uns textos falando sobre a importância da novidade, da surpresa, do diferente. Mas sinceramente acho delicioso conviver com gente previsível e honesta.

Não estou dizendo que é super fácil ser uma pessoa que se comporta sempre de maneira parecida ou ter um ótimo autocontrole. 
Mas podemos nos esforçar para tornar claros nossos limites, nossos desejos, como iremos agir em determinados momentos. Isso faz com que o outro possa se organizar e saber como se comportar com relação a nós. 

Ficou triste? Explica em um momento adequado.
Ficou feliz? Expresse.
Chateou? Mostre a razão e peça para que não aconteça de novo. 
Gosta? Deixa claro.
Não gosta? Deixa claro também. 

Importante fazer isso com frequência. Deixar acumular pra falar tudo de uma vez torna mais difícil. Quando ruminamos uma ideia abrimos espaço para fantasiar sobre ela, mirabolar hipóteses que não fazem o menor sentido na realidade.
Mais importante ainda: fazer com assertividade. Falar honestamente levando em consideração os sentimentos do outro.

Pelo amor de nossas relações, sejamos menos baratas! 


(Obs: obviamente que eu estou descobrindo essas coisas porque tenho sido uma pessoa imprevisível e sem um padrão frequente de comportamento que faz as pessoas ficarem tristes ou sofrerem por isso. Talvez esse texto seja mais um auto-lembrete que qualquer outra coisa).


*Não me lembro quem foi a pessoa que me disse sobre as baratas serem descontroladas. Se for você, me avise! Merece créditos por essa constatação astuta! :D



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Camisinhas antipáticas: o dia que eu pesquisei sobre a Skyn, da Blowtex, e descobri um monte de outras coisas

A camisinha é necessária? (sim)
É um dos métodos contraceptivos mais seguros? (sim)
Ajuda a não contrair Doenças Sexualmente Transmissíveis? (sim)
As pessoas usam? (...ham...mais ou menos...)

(mais da metade dos brasileiros não usa preservativos, de acordo com pesquisa)

Por quê?

Pois bem: essa pergunta estava martelando em minha cabeça. Outro dia conversando lá em casa chegamos à conclusão (nada espantosa) de que as pessoas não usam camisinha por diversos motivos. Minha mãe, particularmente a melhor pessoa do mundo na minha opinião, disse logo a verdade: as pessoas não usam porque é chato. 
Se nós temos tecnologia pra chegar  a Marte; cura pra várias doenças super complexas... por que raios não fazemos uma camisinha que as pessoas usem? 
Parece óbvio, mas não é. 

Por isso fui pesquisar sobre o assunto! 
Descobri que as pessoas já tiveram ideias parecidas e estão tentando inventar coisas mirabolantes, como o spray-camisinha
Nenhuma muito viável até então. 
No meio dessas pesquisanças da vida, descobri 4 coisas:

1) De acordo com os sites, camisinha é "papo de homem"

Eu sei que quem usa camisinha masculina é quem tem o pênis e que o bem estar dos homens é super importante neste assunto. E é mesmo! 

MAS: não somente o deles. 
Me incomodou um tanto perceber que, ao digitar "Skyn Camisinha" no google apareceram os sites: El Hombre, Macho Moda, Papo de Homem. Quando os links indicavam sites alternativos, estavam nas sub-áreas Homem, Coisas de Homem ou Masculino.
(Ah, reparem também que é comum no supermercado ou na farmácia os preservativos e lubrificantes estarem nas alas "Homem" ou "Masculino").

Isso não é uma frescura, é um problema. 
Imagine que você é uma adolescente interessada em iniciar sua vida sexual ou super curiosa sobre sexualidade. Como é muito comum, não tem com quem tratar esse assunto e resolve pesquisar na internet ou dar uma olhada nos produtos em lojas. O que você descobre? Que isso não é coisa para saber e/ou opinar. 

Mas é. 



Além disso, é difícil encontrar informações científicas sobre camisinhas, questões como materiais, resistência, alergias ou dados. Na internet o que se encontra são os sites que descrevem os "test-drives" dos preservativos, propagandas e sex shops. 

Estamos falhando brutalmente na divulgação de informações sobre isso - e depois dizemos que os adolescente são "desinformados", "sem-vergonha" ou "burros". NOT!

2) A história da camisinha é antiga
Vamos falar de datas! Segundo o site do Terra,

"A história da camisinha é muito mais antiga do que se pensa - afinal, desde muito cedo, homens e mulheres descobriram que a atividade sexual trazia alguns inconvenientes, como a gravidez indesejada e as doenças sexualmente transmissíveis. Há mais de 3000 anos, a arte egípcia já mostrava figuras de homens com algum tipo de envoltório no pênis. Há quem fale de peles de animais, mas não se sabe de que material eram feitos. Na Europa, as primeiras evidências do uso de camisinha são pinturas nas cavernas de Combarelles, na França.
A origem histórica da camisinha foi em 1500, quando o anatomista italiano Gabrielle Fallopius inventou uma espécie de "saco de linho" para proteger seus pacientes da sífilis. Como o método inventado por ele funcionou, e as pessoas perceberam a possibilidade de usar a camisinha para evitar a gravidez, seu uso se popularizou e cresceu muito por volta do ano 1700, quando as camisinhas passaram a ser feitas de um material mais fino: membranas de intestino de carneiros. Mas foi em 1843, quando o revolucionário processo de vulcanização da borracha, inventado por Hancock e Goodyear, possibilitou a produção em massa de preservativos, que eles se tornaram realmente mais populares e baratos. Em 1930, o látex líqüido substitui a borracha, e ainda é o material mais usado na fabricação de camisinhas. Nos anos 90, as novas tecnologias possibilitaram a produção de camisinhas cada vez mais sofisticadas, como as de poliuretano, mais finas e sensíveis."

Ou seja, não foi ontem que descobrimos a tecnologia das camisinhas. Tem um tempo já.

3) A tal Skyn é uma invenção maravilhosa
A Skyn é uma linha da Blowtex cujo lema se destaca logo na embalagem: Sensação de usar nada (espertinhos eles, né?). Esse preservativo é feito de poliisopreno (que, pelo que entendi, é um material sintético que não contém látex natural - coisa ótima pras pessoas que têm alergia, aproximadamente 5% da população mundial). Segundo o site oficial, proporciona “Sensibilidade incomparável/material quase imperceptível”.

Simmmmmmmmmmm.
Ela diminui a sensação de "não contato".
Os problemas acabaraaaaaaaaaaaaaaaaaaam. 

Ham...ainda não.

É claro que a lógica do mercado não ia deixar barato (literalmente) a existência de uma camisinha menos incômoda. O pacote com 6 unidades custa em torno de R$12 nas farmácias. Pensando no Brasil hoje, quem pode desembolsar R$2 a cada relação sexual? 
Pouca gente, né?
Pobres excluídos de novo.


Essa é a tal camisinha tecnológica! 
4) As pessoas não estão usando muito camisinha e se deixarmos como está, não vão mesmo usar.

Vamos considerar algumas coisas importantes!

Primeiro: as pessoas têm histórias individuais e razões específicas para usarem/não usarem camisinha. Entretanto, existem dados coletivos que alarmam: a maior preocupação do Brasil hoje, sobre o HIV/AIDS, é a infecção entre jovens.

Pensando em termos de contingências individuais, têm-se uma relação que não é difícil de imaginar: fazer sexo sem camisinha traz reforçadores imediatos poderosos (contato mais próximo, prazer maior, etc). Os pontos negativos de fazer sexo sem camisinha além de serem a longo prazo (gravidez demora ao menos um mês pra ser descoberta; DST mais que isso ainda) são probabilidades e não consequências certas
Fazer sexo com camisinha, por outro lado, diminui os reforçadores imediatos (embora ainda estejam ali), mas eliminam quase completamente a possibilidade de gravidez ou doenças

Dá pra pensar que uma das possibilidades seria aumentar o reforçador imediato no sexo com camisinha, ou seja, melhorar o material para que ele seja menos "estranho". 
Estamos caminhando pra isso com essas tecnologias novas, Skyns e afins.
Mas a quem essas camisinhas são destinadas?

Quem já experimentou os preservativos distribuídos gratuitamente em postos e hospitais percebe que, embora seguros, podem ser muito grossos e desconfortáveis (não é que eu não ache a política de distribuição de preservativos boa - é excelente termos avançado nessa direção). Mas entristece saber duas coisas:

I. As camisinhas tecnológicas e gostosinhas continuarão acessíveis somente para uma parcela pequena da população. Para grande parte das pessoas, elas continuarão sendo antipáticas e chatas de usar.

II. As políticas públicas de saúde ainda não aprenderam a ouvir o que os dados sobre comportamentos têm a dizer acerca dos números que eles não estão sabendo interpretar.

Em outras palavras: o não-uso da camisinha vai continuar sendo considerado uma questão individual. Se uma pessoa engravidar sem querer ou contrair uma DST a responsabilidade vai ser colocada somente sobre ela - embora muito provavelmente não tenha tido muita ajuda pra aprender sobre o assunto.
Fechar os olhos e moralizar é mais fácil que analisar o problema como ele se escancara. 

Nós, educadores, dizemos para os alunos: "Usem camisinha", "Encapem", "Se cuidem", e é  muito importante continuarmos fazendo isso. 
Mas quantos de nós de fato fala sobre isso com eles? Ensina a colocarem "a mão na massa" e treinarem, com modelos sintéticos ou até mesmo formatos geométricos parecidos com o pênis, como se faz? 

Colocar camisinha é um comportamento novo para muita gente, e assim como nadar, dançar, escovar os dentes, precisa ser modelado*. Sabe-se muito bem que a colocação inadequada dela pode gerar estouro ou deslocamento - mesma coisa que usar nada.


Pênis artificiais compõem kits preventivos distribuídos por algumas prefeituras ou que podem ser comprados em sites de educação sexual, como a Semina. Em muitas escolas, ficam guardados porque os educadores têm vergonha de usar.

O que acontece na prática é que soltamos algumas dicas gerais no ar, fazemos umas propagandas nada explícitas ou claras sobre o assunto (especialmente pra quem ainda não entende direito) e achamos que isso vai mudar os comportamentos.
Uma propaganda de carnaval com um monte de gente dançando e um pacotinho colorido de camisinha na mão significa alguma coisa, de fato, para as pessoas?
Vai modificar seus comportamentos?




Às vezes nossas intenções de educação e prevenção são ótimas, mas nossas ações são muito esquisitas.



*Modelado: existe um procedimento de ensino chamado modelagem que consiste basicamente em ir ensinando comportamentos sucessivamente mais próximos daquele que se pretende obter no final. Para escovar os dentes, por exemplo, podemos começar ensinando a pessoa colocar pasta na escova, depois a escova dentro da boca fazendo movimentos repetitivos, e assim por diante. Quando ela errar, corrigi-la e ensinar como é o correto; quando acertar, reforçar seu comportamento para que continue ocorrendo daquela forma. No caso da camisinha, podemos primeiro ensinar como abrir o pacote sem danificar o conteúdo, como segurar a ponta e puxar o preservativo para baixo sem deixar entrar ar, como retirar de forma que o sêmen não vaze, e assim por diante. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Casamento?!

A Paulinha, jornalista da Tribuna de Araraquara, me escreveu dizendo que o número de casamentos na cidade vem ultrapassando amplamente o número de divórcios...
Este é um dado sem dúvida muito interessante, e achei legal ela ter escrito sobre isso! 

Daí ela me perguntou se eu podia escrever um pouco sobre também...e foi assim: 


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Revista Ler & Saber Autismo :)

A Revista Ler & Saber, da Editora Alto Astral, faz edições especiais de temas como o Autismo. Eu tive a grande sorte de poder participar da elaboração do último número - conversei com a Karina Alonso e ela transformou o que eu disse em linguagem de revista! :) 
Algumas palavras são diferentes, como o uso de "graus de autismo", mas é importante aprender a dialogar com públicos diferentes do acadêmico - afinal de contas é pra isso que a gente estuda! 

Gratidão! :)
Pra ter acesso à revista toda: Loja da Editora Alto Astral








CINE-AUTISMO: PSICOLOGIA EM CONSTRUÇÃO E SOCIEDADE EM DESCONSTRUÇÃO

O Cine-Autismo é meu xodó! 
Primeiro porque foi possível criar, por meio dele, uma rede de apoio, escuta e troca de informações com pessoas criativas e queridas sobre este tema tão intrigante que é o autismo.
Em segundo porque o CRP Bauru abraçou carinhosamente a ideia e viabilizou a existência do cine - gratidão por isso!
Em terceiro porque unir cinema e psicologia é sempre uma boa ideia! 
E em quarto porque ele atraiu comunicadoras cuidadosas que quiseram falar sobre isso:


Ler aqui :)


Com exibição do filme Rain Man, palestra e debate com temática em linguagem, o autismo é exposto e repensado
Karina Francisco
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São escolhidos temas de interesse e dúvida geral, filmes de fácil acesso e o evento é aberto tanto para profissionais e graduandos em psicologia quanto interessados em geral uma vez por mês (Foto: Daniele Fernandes)
Às 19 horas da última quarta-feira (9), no Conselho Regional de Psicologia de Bauru (CRP), realizou-se pela terceira vez o Cine-autismo: Psicologia em Construção. O filme escolhido foi Rain Man, de 1988, para abrir o debate sobre a linguagem com pessoas que tem transtorno do espectro do autismo (TEA). A palestra sobre o assunto foi ministrada pela psicóloga Bárbara Trevizan Guerra, mestra em linguagem pela Unesp de Bauru.
No primeiro encontro, foi exibido o filme Mary e Max e discutido, com Ana Carla Vieira, a história do TEA e os critérios de diagnóstico atuais. No segundo, foi a vez de Temple Grandin, e participação de Helen Cazani discutindo sobre inclusão. Como disse Ana Carla Vieira, psicóloga mestranda da Unesp e curadora do cine-autismo, “a ideia é discutir, estamos construindo algo para os estudos de autismo na psicologia, que são relativamente novos, de maneira atrativa e séria.”
O Filme Rain Main
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O filme Rain Man retrata o cotidiano de autistas e a maneira que interagem no meio social. Foi vencedor de 4 Oscars, incluindo melhor filme (Foto: Divulgação)
Com a exibição do filme Rain Man, grande marco da época em que não se falava sobre o assunto, fica bem exemplificado como as pessoas com TEA se comportam. Após a morte do pai, Charlie (Tom Cruise) descobre que a herança não foi destinada a ele pelo pouco contato que tinham. Querendo descobrir quem era o beneficiário, Charlie descobre que tem um irmão, Raymond (Dustin Hoffman), que é autista e estava internado em uma instituição especializada. Charlie sequestra-o a fim de conseguir sua herança.
Em uma longa viagem até Los Angeles, Raymond mostra uma habilidade matemática com grande velocidade e precisão além de uma excelente memória e Charlie aprende a lidar com o irmão até então desconhecido de maneira menos preconceituosa e com mais cuidado. Emocionante, o filme mostra todas as dificuldades e características das pessoas com TEA.
Palestra e debate
Com exemplos de cenas retiradas do filme, Bárbara Guerra explica a análise do comportamento verbal e como se dá a aquisição da linguagem nos TEA. O personagem Raymond apresenta rigidez comportamental, dificuldade de lidar com mudanças repentinas na rotina, dificuldade em aceitar coisas novas, preferência pelos mesmos objetos, falas repetitivas, déficit de comportamento intraverbal (diálogos) e ecolalia (repetição de palavras ou frases), que são características autistas. Com isso, Bárbara esclareceu de qual forma se estimula e ensina a habilidade da linguagem para pessoas com TEA.
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Ainda não há um consenso sobre a origem e as causas do autismo, mas os estudos têm crescido e existem hoje alguns indícios genéticos e bioquímicos, ou seja, funcionamento diferentes em algumas partes do cérebro (Foto: Karina Francisco)
Assim, discutiu-se sobre o que é comportamento verbal e sua crença de que é apenas oralidade, quando na verdade existe comunicação por fichas, gestos, braile, escrita, pensamento e seleção de imagens de objetos. Bárbara explica que “com crianças atípicas, ocorre uma diferença na aquisição da linguagem em relação às crianças típicas”. Elas não relacionam as palavras de maneira fluente, portanto é importante debater sobre manejo do comportamento verbal, os repertórios alternativos, a comunicação intraverbal (diálogo), muito importante para socialização. “O segredo para manejar o comportamento é a consistência, a insistência.”, finaliza Bárbara.
O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) 
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O debate gerou em torno de como lidar com autistas e dicas de ensinamento e estimulo, além de caracterizá-los (Foto: Karina Francisco)
Existem 1,5 milhões de pessoas com TEA no Brasil. Bárbara Guerra o define como “um conjunto de déficits e excessos comportamentais. (..) É uma condição atípica de desenvolvimento que não é determinante, ter autismo não significa que futuramente você terá determinado comportamento”.
Pessoas com TEA são caracterizadas por ter dificuldade com relações sociais, não sabendo como se expressar ou interpretar outras pessoas. Apresentam um ótimo raciocínio lógico, discurso repetitivo, dificuldade de ler sinais sociais, formalidade em sua linguagem, dificuldade em expressar sentimentos. É uma questão de estímulo, pois seu aprendizado e desenvolvimento exigem maior apoio e atenção. São três características principais observadas: dificuldade de comunicação, dificuldade de especialização e movimento e interesse repetitivo. Assim, há uma grande variedade de características e habilidades dentro da deficiência.
Além da dificuldade nos estudos sobre o transtorno, há também a falta de discussão e consequente desconhecimento sobre o TEA na sociedade, que gera preconceito, desinteresse e falta de apoio. A conscientização e divulgação sobre o tema é importante, pois, quanto mais cedo for diagnosticado, maior a estimulação da potencialidade do indivíduo com a intervenção precoce. Portanto, é importante ficar atento ao desenvolvimento infantil, os pais devem sempre procurar estimular ao máximo seus filhos na comunicação e no aprendizado.
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O TEA apresenta níveis leves, moderados e graves, o que pode interferir na autonomia do indivíduo (Foto: Daniele Fernandes)
Bárbara acredita que “com as condições adequadas de ensino todos podem aprender, podem superar as expectativas.” E como conclui Ana Carla, “para falar de autismo, precisa-se mostrar que existe mais de um tipo de espectro. É múltiplo, e existe uma potencialidade, não apenas o déficit. Se olharmos para o que a pessoa com TEA não tem, não se chegará a lugar nenhum. (…) Costumamos olhar apenas a deficiência, a falta, e deixamos de lado as habilidades pessoais de cada um”.
Serviço
Em Bauru, existe atendimento para pessoas com TEA dentro da APAE, no Centro Especializado em Autismo e Patologias Associadas (CEAPA), na Associação dos Familiares Amigos e Pais dos Autistas de Bauru (AFAPAB) , além da programas na SORRI e a terapia ABA. Além disso, a cidade tem pesquisas no Centrinho da USP e no Programa de Psicologia da Unesp.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Sexualidade, gênero, deficiências e privilégio

Este texto é um amontoado de ideias sobre várias coisas ao mesmo tempo: sexualidade, gênero, deficiências e privilégio. É difícil explicar porque essas quatro coisas fazem sentido juntas, então eu vou falar um pouco sobre cada uma delas, e então amarrar tudo no final :) 
Vamos lá!

DEFICIÊNCIA
O modo como as pessoas com deficiência foram vistas e tratadas variou imensamente ao longo do tempo: houve momentos em que ter uma deficiência era considerado um sinal santo e seu tratamento era sublime; em outros, o sinal era demoníaco e muitas morreram na fogueira. Houve também ações de exclusão e internação em instituições de “saúde” mental e capítulos históricos medonhos, como o holocausto, onde elas morreram massivamente. 
E hoje? 
Existem diferenças sobre como as pessoas com deficiência são tratadas em diferentes lugares e culturas, mas podemos dizer que comparado à desastrosa história que a humanidade construiu com essas pessoas, avançamos bem no processo de inclusão. Isso não significa que estamos confortavelmente localizados em um processo maravilhosamente perfeito - temos muito o que melhorar! 

A primeira coisa essencial que precisamos entender com relação à deficiência é que ela é um 
fenômeno social
Você poderia me perguntar: “Mas a pessoa nasceu sem as pernas, como isso pode ser social? É uma questão biológica!”.

Bem, sim, há dimensões biológicas e orgânicas na deficiência, mas elas não existem deslocadas de um momento histórico nem de uma cultura. Uma reportagem recentemente exibida pelo Fantástico mostrava uma mulher usuária de cadeira de rodas. Ela dizia: "Em Londres, não me sinto deficiente, as calçadas são boas e os locais são acessíveis". É aí que está a dimensão social da deficiência. 
O mundo que conhecemos hoje é organizado para pessoas sem deficiência: as escadas, os cinemas, os motéis, as escolas, os clubes, tudo é pensado para o ser humano considerado “normal” (importante colocar o normal entre muitas aspas).

A ideia central é que a deficiência reflete, na verdade, uma desvantagem social. Se o mundo fosse reorganizado de forma mais democrática, ser uma pessoa com deficiência seria completamente diferente. 
Nos aproximamos, desta forma, de um conceito de deficiência utilizado na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em 2008: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual ou sensorial os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”

Cabe a nós, sociedade como um todo, modificar o quadro social para que a inclusão seja uma realidade. Para isso, o que é necessário fazer?
Vamos pensar nisso a partir da seguinte situação:




Os bichinhos estão brincando de fazer chapéu de bexiga. Quando o Porco Espinho solicita entrar na brincadeira, eles precisam refletir: o colega tem algumas características que dificultam sua participação (o espinho certamente furaria sua bexiga!). 
O que deve ser feito para que a inclusão funcione, então? 

( ) Deixa pra lá, não dá pro Porco Espinho ter chapéu de bexiga.
( ) Todo mundo pára a brincadeira.
( ) Tira os espinhos do Porco para que ele possa brincar.
(x) Reinventa a brincadeira de forma mais inclusiva.



Esta fofura de exemplo tem muito a nos ensinar! 
Para promover a inclusão, não é necessário modificar o indivíduo, torná-lo o mais próximo possível do padrão exigido pela sociedade: é preciso mudar a sociedadeNosso papel é modificar os meios sociais de modo que permitamos o acesso das pessoas à educação, ao lazer, ao trabalho. As modificações que precisamos fazer podem ser arquitetônicas, curriculares, de direitos, atitudinais...

Sintetizando, vivemos em uma cultura capitalista competitiva, cuja lógica de mercado se extrapola para outras esferas da nossa vida. Nessa cultura, há ideais a serem alcançados – de beleza, de cultura, de consumo – e eles não têm limites. É uma característica importante deste modelo econômico que tenhamos sempre uma incompletude, algo novo a comprar e atingir, para mantê-lo funcionando. Essa incompletude nos gera infelicidade e sofrimento, de modo que nunca seremos capazes, mesmo se quiséssemos, de atingir os ideais. Para as pessoas com deficiência, esses ideais ficam ainda mais distantes, tornando difícil conviver com essas diferenças.

Temos, então, uma primeira tarefa: 1) Recriar a cultura para que ela seja inclusiva, dando acesso às pessoas em desvantagem para que tenham saúde, educação, cultura, lazer, trabalho.

Mas o que isso tem a ver com sexualidade?

Bem, devido à visão limitante que temos sobre a pessoa com deficiência, restringimos seu acesso a diversas coisas, dentre elas a vivência da sexualidade. Comumente reservamos à ela a posição de infantilização (mesmo quando já são adolescentes ou adultos), de superproteção e incapacidade. Geramos assim um conjunto de atitudes negligentes, como a falta de diálogo sobre a sexualidade, ou não-autorização para que experimentem coisas novas. 


SEXUALIDADE
Quando falamos em sexualidade, é comum que a primeira coisa que nos vêm à cabeça seja o sexo, o ato sexual. Entretanto, sexualidade é muito mais ampla que isso: envolve afetividade, carinho, prazer, amor, valores e regras sociais, identidade, autoestima, imagem corporal, consciência, desenvolvimento emocional, comportamento social, erotismo, desejo, corpo, reprodução, prevenção, cuidados, etc. etc. etc.
Dizemos que a sexualidade é uma dimensão biopsicossocial: envolve aspectos biológicos, culturais e históricos.

Chamamos de educação sexual o processo educativo pelo qual aprendemos sobre sexualidade: ela é contínua (começa quando ainda somos bem pequenos) e se dá tanto de maneira formal (na escola, com um currículo organizado) quanto de maneira informal (por meio de conversas, regras sociais, mídia, discursos religiosos...). 
Quando uma criança pergunta aos pais “De onde nascem os bebês?” e eles ficam envergonhados, corados, fogem da pergunta, estão sendo ensinados sobre algo – que a sexualidade é um tabu! Ou quando um adolescente vai tirar dúvidas sobre sexualidade com os professores e recebe um sermão sobre doenças, gravidez e perigos, estão sendo ensinados também – que a sexualidade é danosa, suja. 

As pesquisas mostram que a educação sexual dos jovens e adolescentes brasileiros é deficitária, envolvida por crenças e conhecimentos desencontrados que os confundem. Hoje, eles representam a parcela da população mais frequentemente infectada com o vírus HIV – claramente estamos falhando em algum lugar. 

Quanto às pessoas com deficiência, este processo é ainda mais deficitário: existem crenças populares, mitos sobre sua sexualidade, como a hiperssexualidade (“ah, eles têm desejos incontroláveis!”); assexualidade (“eles não têm sexualidade”); impossibilidade de terem relacionamentos ou serem desejáveis; incapacidade de reprodução ou cuidados de família.

Acontece que a sexualidade é uma dimensão humana: os processos de construção são diferentes de pessoa para pessoa, mas ela acompanha todos nós durante a vida inteira. Aqui temos, então, nossa segunda tarefa: 2) Desconstruir essas ideias errôneas acerca da sexualidade das pessoas com deficiência para que elas possam viver de forma mais libertária.


GÊNERO
O conceito de gênero é polêmico e tem sofrido constantes transformações. O essencial sobre ele é saber que: o que é considerado feminino ou masculino em cada cultura é construído histórico e socialmente
Utiliza-se frequentemente as diferenças anatômicas entre as pessoas para justificar esta separação entre homens e mulheres, e atribui-se seus gostos, papéis sociais, desejos e sentimentos a partir dessas características orgânicas. É por isso que precisamos ficar atentos: a naturalização do gênero traz sofrimentos a muitas pessoas que não correspondem aos padrões “normais” e “ideais”.


Neste sentido, temos mais uma tarefa: 3) desconstruir a fixação de gênero e assumir que a sexualidade é múltipla, pode ser vivida de inúmeras maneiras, ser realizadora em seus diferentes aspectos. 


PRIVILÉGIO
No dicionário, privilégio está descrito como um direito, uma vantagem, uma licença. Para refletir sobre essa ideia vamos analisar a seguinte imagem:
"Para uma seleção justa, todo mundo deve passar pelo mesmo exame: escalar aquela árvore!"
Na imagem, está expressa uma situação de exame (como ocorre com o vestibular ou em seleção de empregos) e o avaliador indica que os candidatos devem escalar uma árvore - mesmo que alguns deles não tenham características necessárias para escalada!

Em outras palavras, significa que em determinados contextos algumas características representam privilégios. Vamos trazer isto para nossa realidade:
Vivemos em uma sociedade: capitalista (valoriza o poder de consumo); colonizada historicamente por europeus e marginalizadora de negros e índios; heteronormativa (parte do princípio que gostar do sexo oposto é a única maneira correta de viver); cisnormativa (acha um absurdo que a pessoa se identifique com o outro gênero); gordofóbica (santifica a magreza); patriarcal (faz de tudo para manter a mulher em uma posição desprivilegiada); religiosa (mantém fortes seus princípios religiosos católicos e evangélicos, demonstrando intolerância contra outras matrizes ou contra ateus); as escolas são organizadas em séries coletivas (desconsiderando necessidades individuais dos alunos), e assim por diante.

Só por esta breve descrição, já é possível perceber que: um homem, branco, heterossexual de classe alta será melhor aceito e terá vantagens em uma porção de situações se comparado a um homem, negro, pobre, homossexual. 
Este homem, negro, pobre, homossexual e evangélico, terá vantagens se comparado a uma mulher, trans, pobre, umbandista.
Assim por diante podemos perceber que todos temos privilégios em alguns aspectos e situações quando comparados a outras pessoas. 
Nessa lógica, a pessoa com deficiência está sempre em desvantagem com relação à pessoa sem deficiência (porque como já comentei, o mundo é organizado para pessoas sem deficiência).

Sabendo que todos temos privilégios, o que fazer? Nossa quarta tarefa: 4) Reconhecer os privilégios que possuímos, lutando para que a desigualdade seja diminuída.

(Sobre reconhecimento de privilégios, quem puder assista esse vídeo aqui do Canal das Bee que é muito lindinho!)


JUNTANDO TUDO: SEXUALIDADE, GÊNERO, DEFICIÊNCIAS E PRIVILÉGIO.
Muito bem, agora que já entendemos o que é cada uma dessas coisas, vamos para o que interessa: o que elas significam juntas!

Começando por uma inocente busca no Google, quando digitamos "sexualidade e deficiência" nas imagens, aparece o seguinte:






São bonitinhas e sem dúvida representam avanços na maneira como nossa sociedade vê a sexualidade das pessoas com deficiência. Mas vamos mais fundo: o que elas têm em comum? 
Os casais são: 1) heterossexuais (relacionam-se com pessoas do sexo oposto); 2) cisgêneros (suas identidades de gênero são semelhantes às esperadas a partir do seu corpo biológico, ou seja, eles não são trans); 3) aparentemente de classe sócio-econômica média ou alta; 4) são brancos.

Eles representam todas as pessoas com deficiência?
Definitivamente, não.
Como tudo o que se vê na mídia, eles são minimamente próximos a padrões sociais de "normalidade". Assim como as imagens um pouco mais eróticas que seguem abaixo:





O que quero dizer é: dentre as pessoas com deficiências também há privilégios.

Por exemplo: o homem com deficiência heterossexual tem vantagens com relação ao homossexual; o cisgênero tem vantagem em comparação ao trans; a pessoa com um corpo próximo aos padrões tem vantagem com relação a uma pessoa gorda, e assim por diante. 

Materiais alterativos, como este ótimo ensaio e filmes como o Hoje eu quero voltar sozinho (que conta a história de um adolescente com deficiência visual que é gay) têm aparecido, felizmente, para que a representação seja mais democrática. 






Ótimo. Continuemos:
Considerando, ainda, que os homens em nossa sociedade possuem privilégios com relação às mulheres em grande parte das situações (trabalho, direitos, participação política, cobranças estéticas, expectativas pessoais) pode-se dizer que a mulher com deficiência está em desvantagem com relação ao homem com deficiência.

Além de chegar a esta conclusão pela junção dos conceitos trabalhados até aqui, alguns dados de pesquisa corroboram com a ideia da DESVANTAGEM DA MULHER COM DEFICIÊNCIA ou do PRIVILÉGIO DO HOMEM COM DEFICIÊNCIA. Vamos ver:


• O casal norte-americano Mary e Jerry Newport, diagnosticados com Síndrome de Asperger (ou TEA), dizem houve dificuldades para ambos com relação ao desenvolvimento sexual, mas que no caso da mulher a vulnerabilidade ficou mais evidente. Ela sentiu uma pressão muito forte durante a adolescência com relação à aceitação social, o que a levou a manter relacionamentos sexuais abusivos. Além disso, sendo tida como “madura”, por ser menina, foram oferecidas a ela drogas e companhias danosas de forma muito mais frequente, se comparado ao marido (Newport e Newport, 2002).

• Alguns autores comparam a baixa autoestima com o aumento da vulnerabilidade. Considerando que a autoestima é construída pelo olhar do outro e que as mulheres são vítimas maiores de cobranças estéticas que os homens, se tornam também mais vulneráveis neste sentido (Camargos e Teixeira, 2013). 

• As preocupações dos pais de meninas com deficiência se relacionam a padrões esperados socialmente para mulheres: casar-se, ter filhos, conseguir cuidar de uma família, conseguir manter um marido, serem simpáticas e fazerem serviços domésticos (Camargos e Teixeira, 2013).
(onde fica a felicidade da menina aqui, não se sabe)


• Dupla desvantagem e vulnerabilidade: “As relações de gênero são fortemente marcadas nas mulheres com deficiência, pois, devido ao histórico processo de infantilização e dependência familiar em que estão submersas, as características de fragilidade feminina são intensificadas. Assim, elas são superprotegidas pela família em razão de violência e abuso sexual; e, frequentemente, são vistas como incapazes de exercer os papéis que são atribuídos às mulheres sem deficiência, tais como constituir família, cuidar dos filhos e das atividades domésticas” (Dantas, Silva e Carvalho, 2014).
• Comparando experiências de meninos e meninas com deficiências a dificuldade de fazer e manter amizades é mais intensa no caso das meninas – porque não conhecem sobre assuntos frequentes, como moda. Além disso, as meninas são vistas como mais vulneráveis aos abusos – porque mulheres são mais vulneráveis por inúmeras razões – e isso preocupa muito as famílias, restringindo muitas vezes seu acesso a experiências sexuais (Cridland et al., 2014).

• O estudo de Gesser, Nuernberg e Toneli (2013) é uma fonte incrível de dados sobre esta questão. Eles entrevistaram oito mulheres com deficiência física e obtiveram relatos sobre como elas se sentem em diversos aspectos. Alguns trechos estão transcritos abaixo para que fique clara sua desvantagem social:

"Eu me sinto mais mal por ser gorda do que por ser deficiente"

"Ah, eu acho assim, eu queria ser mais magrinha, sabe? Ter um corpo mais bonitinho, né?"

"A minha vontade era de ter um corpinho esbelto, tudo, então sempre queria emagrecer"

"Dessa parte assim pra baixo ... já evito me olhar um pouco, sabe? ... Porque o corpo ficou deformado, ficou demarcado (pela lesão); e ... é um pouco assim, é o próprio corpo da gente que é defeituoso, tem cicatrizes" 

"é o próprio corpo da gente que é defeituoso, tem cicatrizes. Eu penso que aí vai ter a cobrança, né? E também assim, a vergonha também um pouco que a gente tem"

"Eu acho mais difícil para a mulher (ser deficiente) porque aí a mulher não pode fazer nada dali, né? ... E tudo que se faz ... é a dona da casa que faz" 

"É tudo no limite, né? Porque eu não posso correr, não posso fazer uma porção de coisas, né? ... Varro a casa, às vezes varro aqui, mas não varro embaixo da cama, porque não aguento a dor"


"Eu tinha muita depressão, tentei suicídio três vezes, porque eu via o meu filho na cama e eu sem poder fazer nada. ... Então, ali eu achei que eu não valia mais nada, que eu era um pedaço de isopor que você põe na água e vai embora"

"O marido botava tudo dentro de casa, mas depois ele virou a beber ..., ele chegava a virar a mesa com tudo em cima" alegando ter o direito, por sustentar a casa e os filhos. 

"Daí ... começou a tomar, beber, sabe? Daí, começou a me incomodar, começou a me bater, né? Chegou a me bater muitas vezes."

"... é que ele ligava em casa pra mim, né? Quando eu não estava, daí a minha mãe metia a língua nele, chamava ele de sem-vergonha, de vagabundo, de tudo quanto era coisa, que ele queria comer só o que eu tinha de herança. Se ele não tinha vergonha de namorar com uma deficiente".

"Era só pá pum e deu, né? Acabou. Só servia pra ele, pra mim nada .... Então, eu me sentia assim .... Meu Deus! Parece que eu sou um pano de chão: usa, vira, vira do lado e deu?"

Os relatos de quem vivencia a experiência de desvantagem social deveriam ser suficientes para que seus direitos sexuais fossem garantidos.
Mas existe sim uma ajudinha legal: tanto a Declaração dos Direitos Sexuais (1997, 2014) quanto as citações na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2007) asseguram o direito de decisão sobre o próprio corpo; de acesso à informação e educação sexual adequada; de reprodução e saúde sexual; de vivenciar o prazer.

Temos, portanto, tanto enquanto profissionais da Psicologia, quanto como cidadãos, cinco tarefas essenciais relacionadas a este tema:


1) Recriar a cultura para que ela seja inclusiva, dando acesso às pessoas em desvantagem para que possam ter saúde, educação, cultura, lazer, trabalho.
2) Desconstruir ideias errôneas acerca da sexualidade das pessoas com deficiência para que elas possam viver de forma mais libertária.
3) Desconstruir a fixação de gênero, assumindo que a sexualidade é múltipla, pode ser vivida de inúmeras maneiras e ser realizadora em seus diferentes aspectos.
4) Reconhecer os privilégios que possuímos, lutando para que a desigualdade seja diminuída.

5) Utilizar todas estas tarefas acima para o reconhecimento da vulnerabilidade da pessoa com deficiência, especialmente da mulher, e lutar por ela por meio de nossos privilégios sociais.

Não estou dizendo que: será fácil.
Não estou dizendo que: será do dia para noite.
Não estou dizendo que: a mudança será total.
Mas estou dizendo sim que é nossa obrigação pensar sobre este assunto e refletir sobre quais ações podemos fazer para modificar estas realidades. 
Vamos?


Referências utilizadas:
ARANHA, M. S. F. Paradigmas da relação da sociedade com as pessoas com deficiência. Revista do Ministério Público do Trabalho, n. 21, p. 160-173, 2001.
CAMARGOS JR, W; TEIXERA, I. A. Síndrome de Asperger em mulheres. In: CAMARGOS JR., W. Síndrome de Asperger e outros Transtornos do Espectro do Autismo de Alto Funcionamento: da avaliação ao tratamento. Belo Horizonte: Artesã, 2013. p. 87-106.
CRIDLAND, E. K.; JONES, S. C.; CAPUTI, P.; MAGEE, C. A. Being a girl in a boy’s world: investigating the experiences of girls with autism spectrum disorders during adolescence. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 44, 1261-1274, 2014.
DANTAS, T. C.; SILVA, J. S. S.; CARVALHO, M. E. P. Entrelace entre gênero, sexualidade e deficiência: uma história feminina de rupturas e empoderamento. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 20, n. 4, p. 555-568, 2014.
GESSER, M.; NUERNBERG, A. H. Psicologia, sexualidade e deficiência: novas perspectivas em direitos humanos. Psicologia: ciência e profissão, v, 34, n. 4, 850-863, 2014.
GESSER, M.; NUERNBERG, A.; TONELI, M. J. Constituindo-se sujeito na intersecção gênero e deficiência: relato de pesquisa. Psicologia em estudo, v. 18, n. 3, p. 419-429, 2013.
MAIA, A. C. B. Reflexões sobre a sexualidade da pessoa com deficiência. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 7, n. 1, p. 35-46, 2001.
MAIA, A. C. B.; RIBEIRO, P. R. M. Desfazendo mitos para minimizar o preconceito sobre a sexualidade de pessoas com deficiência. Revista Educação Especial, Marília, v. 16, n. 2, p. 159-176, 2010.
MAHONEY, A. POLING, A. Sexual abuse Prevention for People With Severe Developmental Disabilities. Journal of Developmental Disabilities, v. 23, p. 369-376, 2011.
NEWPORT, J.; NEWPORT, M. Autism-Asperger’s & sexualitypuberty and beyond. Arlington, Texas: Future Horizons, 2002.
OMOTE, S.; OLIVEIRA, A. A. S.; BALEOTTI, L. R.; MARTINS, S. E. S. O. Mudanças de atitudes sociais em relação à inclusão. Paidéia, v. 15, n. 32, 387-398, 2005.