Mas o mais curioso vem aí: algumas pessoas têm usado este recurso para falar. Falar, falar, falar, sobre qualquer coisa. A Paulinha, jornalista da Tribuna de Araraquara, estava fazendo uma matéria sobre isso (sai na edição de amanhã) e me perguntou: "Falar com a Siri, nesse sentido, é saudável?", e isso me movimentou. Eu escrevi para ela, então.
Nossa atenção vem sendo disputada acirradamente no mundo moderno: temos celulares com mili aplicativos, computadores, jogos, televisão e demandas da vida offline como cuidar dos filhos, trabalhar, estudar, fazer exercícios, produzir, ler (...)
Quando vemos, nosso
tempo foi consumido – e mal percebemos onde!
Neste contexto
contemporâneo, a maneira como ouvimos uns aos outros mudou significativamente, as conversas longas de olhos nos olhos, os conselhos e reflexões se tornaram
muito mais rápidos e raros.
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Eu sei que vocês fazem isso sim! (e eu também) |
Embora as pessoas escutem umas às outras,
frequentemente não se ouvem com qualidade.
Nós estamos imersos em nossos próprios mundos virtuais e reais e temos dificuldades para sair dele.
Nós estamos imersos em nossos próprios mundos virtuais e reais e temos dificuldades para sair dele.
O individualismo é um princípio básico de nossa
sociedade que compramos todos os dias. Ficamos fechadinhos em nossos casulos e por
meio das redes sociais temos a falsa sensação de compartilhamento, quando na
verdade estamos mais isolados que nunca.
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Quadrinhos Ácidos |
O ouvir com atenção não é uma habilidade natural, temos
que aprender, exercitar, e ensinar às crianças sobre isso.
Este ensino pode ser feito de modo sistemático ou a partir da maneira mais simples possível: dando o modelo.
Este ensino pode ser feito de modo sistemático ou a partir da maneira mais simples possível: dando o modelo.
(muitas vezes mal ouvimos as historinhas de escola que
os pequenos nos contam – e ficamos chateados quando eles nos trocam por seus
jogos de celular e ignoram o que dizemos)
Se o uso da Siri é saudável? Não existe uma resposta, mas ele escancara uma característica
sintomática de nosso tempo: estamos carentes, não temos quem nos ouça e não
sabemos ouvir.
O que fazer, então?
( ) Senta e chora.
( ) Compra um Iphone e habilita a Siri.
(x) Se mexe.
(x) Se mexe.
Podemos ficar disponíveis: destinar mais tempo à
comunicação real que à virtual.
Podemos olhar nos olhos, tocar nos ombros, oferecer atenção, demonstrar preocupação. Fazer perguntas sobre o dia do outro, sobre a prova de ontem ou como se sente sobre a apresentação de amanhã. Podemos largar o whatsapp por dez minutos enquanto jantamos e ignorar uma notificação do facebook no meio de um desabafo importante - ou de uma historia engraçada.
Podemos olhar nos olhos, tocar nos ombros, oferecer atenção, demonstrar preocupação. Fazer perguntas sobre o dia do outro, sobre a prova de ontem ou como se sente sobre a apresentação de amanhã. Podemos largar o whatsapp por dez minutos enquanto jantamos e ignorar uma notificação do facebook no meio de um desabafo importante - ou de uma historia engraçada.
Às vezes uma olhadinha no celular é suficiente pra pessoa perder o fio da conversa e a vontade de falar. Algumas chamadas não são imediatas, e não há nada mais urgente que um bom blá-blá-blá.
É muito comum ouvirmos depois de atendimentos psicológicos "Nossa, só de falar eu já me sinto bem melhor" ou "Puxa, obrigada por me ouvir". Esses movimentos são importantes pra nós, psicos, mas não precisam ser restritos a nossos espaços!
(uma conversa de bar também pode ser deliciosamente esclarecedora se o ouvir for atencioso)
(uma conversa de bar também pode ser deliciosamente esclarecedora se o ouvir for atencioso)
Sejamos solidários!
(Ou, sem mais delongas, larga a Siri, o whats e o messenger e vai perguntar a alguém um "Tudo bem?" mais honesto)
(Ou, sem mais delongas, larga a Siri, o whats e o messenger e vai perguntar a alguém um "Tudo bem?" mais honesto)